05 dez 2020

Uso estratégico de alimentos ricos em fibra em dietas para suínos



AUTOR(ES)

Professor Dr. Urbano dos Santos Ruiz

Alimentos com elevados teores de fibra dietética total (FDT) sempre tiveram uso restrito na alimentação de suínos, em função de serem parcialmente digeridos por estes animais e pelo fato de a fibra potencialmente prejudicar a digestibilidade dos demais componentes das dietas. Tais pontos fazem com que ingredientes ou dietas ricas em FDT
tenham valor nutricional reduzido para suínos.

Entretanto, o interesse em se utilizá-los na suinocultura tem  aumentado, em parte por seu menor custo comparativamente aos de baixa fibra e por desencadearem efeitos fisiológicos no animal que podem ser usados de forma positiva na criação de suínos, tais como a modulação do consumo de ração e da saúde intestinal dos animais.

Neste artigo, pretende-se, inicialmente, definir fibra vegetal, abordando seus diferentes componentes e seus efeitos negativos sobre a utilização de nutrientes e energia por suínos. Sequencialmente, serão elencados e discutidos alguns efeitos fisiológicos positivos da fibra na alimentação de suínos, indicando potenciais de uso para alimentos fibrosos em dietas para suínos.

 

As fibras vegetais são majoritariamente compostas por polissacarídeos não-amiláceos (PNA) e por lignina, além de pequenas quantidades de oligossacarídeos, proteínas, lipídeos e minerais, sendo sua função nas plantas quase que exclusivamente estrutural, compondo a parede celular dos vegetais. Os PNA mais abundantes são a celulose:

 

 

 

HEMICELULOSE: Composta por arabinoxilanos, ligações mistas de β-glucanos, mananas, galactanas, xiloglucanas e fructanas, que são parcialmente solúveis em água.

PECTINA: Formada por ácidos poligalacturônicos, os quais podem ser substituídos por arabinanas e arabinogalactanas, que são parcialmente solúveis em água.

 

 

Os suínos não produzem enzimas digestivas para degradação dos PNA, que são parcialmente digeridos em seus intestinos grossos em decorrência da ação microbiana. Os PNA podem diminuir a digestibilidade dos nutrientes e da energia de dietas oferecidas a suínos, ou pelo menos modificar suas taxas de digestão e absorção, sendo tais interferências dependentes do teor e dos tipos de PNA nas dietas e da idade dos animais que as consumirem.

Nos ingredientes de origem vegetal, a concentração e composição da FDT e, consequentemente, dos PNA, dependem:

 

Parte do vegetal que for fornecida aos animais

Sua maturidade fisiológica

Solubilidade destes polissacarídeos

Suas propriedades físico-químicas

 

Estes efeitos estão relacionados a mudanças fisiológicas na digesta na presença de fibras, que reduzem o acesso das enzimas endógenas aos nutrientes e afetam a taxa de passagem e a viscosidade da digesta. Em suma, os valores nutricional e energético da fibra para suínos são limitados, tanto por serem parcialmente digeridas pelos suínos como por poderem reduzir a digestão e absorção de outros compostos no trato digestório dos animais.

 

Tipos de fibra

Os PNA podem ser classificados como solúveis e insolúveis, sendo que em tecidos como a casca da cevada e o pericarpo/testa do centeio, milho e trigo, existem compostos insolúveis na forma de arabinoxilanas, celulose e lignina. Já na camada de aleurona e subaleurona encontram-se as β-glucanas e arabinoxilanas, tanto solúveis como insolúveis. Em ingredientes como as polpas de beterraba e cítrica encontram-se principalmente PNA solúveis, compostos essencialmente por substâncias pécticas.

 

A fibra solúvel tem como características aumentar a viscosidade da digesta no intestino delgado, o que diminui a ação das enzimas  digestivas endógenas. Este ponto decorre da menor mistura da digesta com enzimas e também ocasiona retardo do trânsito intestinal. Este tipo de fibra pode ser fermentada no intestino grosso, sendo substrato para a microbiota produzir ácidos graxos de cadeia curta – AGCC, como acetato, propionato, butirato, lactato e succinato, que se constituem em fonte de energia, bem como H2O e vários gases como CO2, H2 e CH4.

 

 

Entretanto, vale destacar que a fermentação da fibra e a produção de AGCC são variáveis, dependendo da idade do suíno e do teor e do tipo de fibra na dieta e que no processo de fermentação há perdas de energia, pela geração de compostos sem valor energético para o animal, como o CH4.

A fibra insolúvel é de mais difícil degradação pelos microrganismos do intestino grosso, comparativamente a fibra solúvel, e atribui-se a ela aumento na produção de secreções digestivas, de muco e água, na taxa de passagem (diminuindo o tempo de trânsito da digesta) e na retenção de água pela digesta.

 

Assim, ocorrem reduções no aproveitamento dos nutrientes e da energia dietéticos. Adicionalmente, pelo fato das fibras, tanto a solúvel como a insolúvel, não serem digeridas por enzimas de suínos, elas podem impedir que compostos solúveis, ou digestíveis, entrem em contato com enzimas do animal, impedindo assim suas digestões.

 

 

Em suma, de modo geral a fibra é parcialmente digerida por suínos e pode reduzir o aproveitamento de outros componentes dietéticos, sendo estes efeitos dependentes dos teores e tipos de fibra nas dietas e da idade dos suínos.

Por outro lado, os ingredientes fibrosos possuem efeitos fisiológicos que podem ser positivos para os suínos, por melhorar a saúde intestinal dos suínos e influenciar mecanismos de saciedade, regulando o consumo de alimentos por suínos.

Os principais mecanismos de ação envolvem:
Modulação da microbiota intestinal

Sistema imunológico

Produção de substâncias que determinam consumo de alimentos, como grelina e leptina, assim como efeitos físicos no trato gastrintestinal

 

Em algumas pesquisas verificou-se que fontes de fibra, principalmente insolúveis, proporcionaram redução da contagem de microrganismos como Escherichia coli na digesta e/ou fezes dos animais, assim como redução na ocorrência de diarreia, indicando possível controle dos microrganismos patogênicos pela utilização da fibra. Em outros trabalhos também se observou maior ganho de peso dos animais submetidos a dietas com inclusão de ingredientes fibrosos, comparativamente a animais alimentados com dieta convencional de baixa fibra.

 

Os mecanismos que condicionam os efeitos da fibra na melhora da saúde intestinal e no controle de microrganismos patogênicos não estão totalmente estabelecidos, mas são atribuídos ao fato de a fibra não ser hidrolisada na parte superior do trato gastrintestinal, tornando-se substrato para bactérias no intestino grosso.

 

 

Certos tipos de fibra podem se constituir em fonte de alimento para microrganismos benéficos, que irão colonizar o trato, alterando a microbiota em favor do hospedeiro. Aditivamente, os produtos finais da fermentação da fibra, os AGCC, podem ser nocivos aos microrganismos patogênicos. Alguns estudos também demonstraram que determinados tipos de fibra dietética aumentam o número de linfócitos e leucócitos no sangue e das imunoglobulinas (IgA) no tecido linfoide associado ao intestino. Paralelamente, a propriedade da fibra dietética insolúvel de acelerar a passagem da digesta pode reduzir a atividade microbiana, principalmente de microrganismos patogênicos.

Com relação ao aumento no ganho de peso de leitões associado ao consumo de fibras, pode-se inferir que seja também um reflexo da ação da fibra em melhorar a saúde intestinal, como em estimular o consumo de rações pelos animais que se refletirá em maior ganho de peso.

 

Vale destacar que os efeitos positivos da fibra em dietas para leitões foram observados em pesquisa pela utilização, principalmente, de fontes de fibra predominantemente insolúvel e incluídas em teores relativamente baixos (até 3%).

 

Outra possível utilização positiva de ingredientes fibrosos para suínos está relacionada a seus efeitos na modulação do consumo de ração pelos animais, porém neste caso em limitar o consumo.

Suínos em terminação e porcas em gestação, muitas vezes, precisam ter seus consumos de ração controlados para evitar que obtenham energia em excesso, além de suas exigências para pleno desempenho, e possam acumular gordura em demasia.

 

No caso de suínos em terminação, tal ponto é mais evidente quando os animais são criados para elevados pesos de abate, 120-130 kg de peso vivo, e a depender da forma como forem alimentados e de sua genética podem acumular gordura corporal em excesso, o que é indesejado pelo consumidor. Para as porcas, o controle do consumo de ração se dá principalmente nos dois terços iniciais da gestação, de modo a impedir que se tornem obesas, fato que pode ocasionar problemas reprodutivos.

Alimentos com elevados teores de fibra dietética total (FDT) sempre tiveram uso restrito na alimentação de suínos.

Estratégias nutricionais

Existem estratégias para a diminuição da deposição excessiva de gordura, sendo que algumas delas podem ser empregadas por meio da nutrição e/ou alimentação dos suínos, como a utilização de aditivos modificadores do metabolismo, como a ractopamina, e a restrição alimentar.

O uso da ractopamina é bastante empregado no Brasil na alimentação de suínos em terminação, com resultados já bem estabelecidos como meio eficaz para evitar deposição excessiva de gordura, aumentar deposição de músculo e o ganho de peso pelo animal. Contudo, o uso deste aditivo é proibido em diversas partes do mundo, como na União Europeia, Rússia e China, o que impede a exportação de carne de animais que tenham sido alimentados com ractopamina para estes mercados.

Na restrição quantitativa se fornece ao animal quantidade de ração inferior ao seu consumo voluntário, não excedendo suas necessidades energéticas para mantença e crescimento, evitando assim a deposição excessiva de gordura.

Cabe ressaltar, porém, que nesta prática as dietas contêm teores de energia e nutrientes adequados para atender as exigências nutricionais e energéticas dos suínos, isto é, não ocorre falta de nutrientes ou energia, corrige-se somente o excesso.

No entanto, o uso da restrição quantitativa para suínos em terminação pode acarretar em aumento na mão de obra nas granjas e/ou dificuldades operacionais, caso não possuam nas baias sistemas de alimentação apropriados para estes fins.

Faz-se necessário que todos os animais tenham acesso simultâneo ao comedouro, visto que a quantidade de ração fornecida será limitada. Para porcas em gestação, a restrição quantitativa pode ser feita de duas formas:

Alojamento das fêmeas em baias individuais com limitação de movimentação, em que a matriz tem acesso somente à sua ração, cuja quantidade fornecida é controlada por sistemas automatizados ou manuais

Manutenção das fêmeas em baias coletivas, com estações de alimentação eletrônicas, com controle de acesso das fêmeas e alimentação também individualizada.

Assim, fica claro que é fundamental que a granja conte com equipamentos ou instalações adequadas para aplicação da prática em questão, o que em certos casos pode ser oneroso, principalmente no caso do uso das estações de alimentação para fêmeas.

Suplementarmente, em qualquer uma das situações descritas os animais passarão por algum tipo de estresse, seja por consumirem alimentos aquém do que gostariam, ou para as porcas, pelo alojamento individual, reconhecidamente estressante e pode ocasionar distúrbios comportamentais nos animais.

 

A restrição alimentar qualitativa consiste em se fazer diluição energética da dieta, isto é, no fornecimento de dieta com teor energético reduzido e com alto teor de fibra. 

 

 

 

 

Na prática, se faz a inclusão de ingredientes ricos em fibra e pobres em energia, como coprodutos agrícolas. Esta técnica permite ao animal consumir ração à vontade, sem ingerir energia além de suas necessidades.

Pode ser considerada uma estratégia que não interfere no bem-estar dos animais, como a restrição quantitativa, pois não há controle das quantidades oferecidas e consumidas pelos animais e permite a manutenção dos animais em baias coletivas, sem a necessidade do uso de qualquer equipamento especial para alimentação.

 

Fontes de fibra

Os ingredientes oriundos do processamento de alimentos, como cascas, farelos e bagaços, estão entre os principais produtos a serem utilizados para a diluição energética das dietas de suínos, por apresentarem elevados teores de FDT e por serem, geralmente, de baixo custo.

Em estudos sobre a utilização de ingredientes fibrosos para suínos, a menor deposição de lipídeos nas carcaças dos animais alimentados com dietas com alto teor de fibra parece estar diretamente relacionada ao menor consumo de energia, decorrente do menor consumo de ração dos animais submetidos as dietas de alta fibra (20 a 27% de inclusão dos resíduos fibrosos), em relação aos animais que receberam dietas sem inclusão de ingredientes fibrosos.

Estes efeitos podem estar associados a promoção da saciedade, conforme indicam estudos que demonstraram a ação de dietas ricas em fibra em reduzir a síntese de grelina, hormônio que tem entre seus efeitos o estímulo ao consumo de alimentos, e aumentar a produção de leptina, hormônio que atua promovendo a saciedade e a redução no consumo de alimento. Cumpre ressaltar, que os efeitos da fibra em modular a produção dos hormônios ligados aos estímulos, negativos ou positivos, foram evidentes pelo consumo de fontes de fibra solúveis.

 

 

 

Paralelamente, o elevado consumo de dieta fibrosa pode promover distensão das paredes do estômago, sinalizando também ao organismo do animal para que reduza consumo e a fibra insolúvel, por poder reter água e “inchar”, pode levar a limitação do trato gastrointestinal do animal em armazenar alimento e também provocar redução no consumo. Este efeito parece ser o principal quando se utiliza fontes de fibra insolúvel.

Como a ingestão de dieta rica em fibra irá proporcionar redução de consumo de alimentos e a fibra têm efeitos negativos sobre digestão e absorção de nutrientes, é preciso atenção ao se formular dietas em programas de restrição
qualitativa.

Deve-se atentar para que os teores de nutrientes sejam adequados, aumentados, de modo a compensar a diminuição no consumo de ração pelos animais.

No entanto, a restrição alimentar qualitativa com a utilização de ingredientes fibrosos tem grande potencial de uso para suínos em terminação e porcas gestantes, de maneira econômica.

Conclusão 

Por fim, alimentos fibrosos podem e devem ser utilizados na alimentação de suínos, pois, como discutido, desencadeiam efeitos fisiológicos importantes e úteis na alimentação destes animais, são de baixo custo e amplamente disponíveis no Brasil, na forma de coprodutos agrícolas.

Estudos são necessários para se determinar com maior exatidão os efeitos de diferentes fontes de fibra, com características físicoquímicas distintas, para os suínos jovens e os adultos, a fim de se encontrar teores de inclusão adequados nas dietas dos suínos em suas diversas fases de vida.

Professor Dr. Urbano dos Santos Ruiz

Departamento de Zootecnia ESALQ/USP.




Entrevistas +

NOVIDADES DO SETOR

 
 







Ver outras revistas


 

Cadastro Newsletter Suino Brasil

Tenha acesso a boletins de nossos especialistas e a revista digital.



 

SuínoMind
SuínoBrasil
no Youtube

 
logo

GRUPO DE comunicação agrinews

Política de Privacidade
Política de Cookies