PSA na China: Análises epidemiológica e de mercado



AUTOR(ES)

Especialista em suinocultura

Cândida Azevedo

Zootecnista, MsC Zootecnia, Doutoranda em Ciência Animal e Pastagens e Editora Grupo de Comunicação AgriNews

Com a meta de atingir a autossuficiência de 95% em carne suína, a China, maior consumidor mundial de carne suína, enfrenta novos surtos da Peste Suína Africana (PSA).  Além disso, vacinas ilegais, novas variantes do vírus da PSA e pressão de outras doenças, particularmente a síndrome respiratória e reprodutiva suína (PRRS), resultaram em um aumento da taxa de mortalidade de leitões e abate de porcas e suínos nos últimos meses.

Novos surtos de PSA na China: Análise de mercado e epidemiológica

 

Nos últimos dois meses foram registrados casos da PSA em Hebei, Henan, Sichuan, Yunnan e Xinjiang. Segundo as projeções da Rabobank, o esperado é um crescimento na produção de carne suína na ordem de 8% a 10% em 2021. Recentemente, recentemente a agência ajustou a  estimativa para baixo, devido aos ventos contrários criados pela nova onda de surtos de PSA. Acredita-se que a produção de suínos continuará crescendo, com o aumento do rebanho de porcas em relação ao ano anterior, apesar das perdas durante o inverno.

Segundo estimativas da Rabobank, o rebanho de matrizes caiu de dezembro de 2020 a fevereiro de 2021, com queda de 3% a 5% ao mês. Entretanto, acredita-se que o rebanho de porcas atual ainda é 10% a 15% superior do que há um ano, o que é visto como um retrocesso durante a tendência de aumento de repovoamento ao invés de um ponto de inflexão.

A SuínoBrasil conversou com o analista de proteína animal da Rabobank Wagner Yanaguizawa.

Diante da recorrência da PSA na China e do relatório da Rabobank, quais as novas projeções para recuperação do rebanho chinês?

Notícias recentes sinalizam que o ritmo de recomposição do rebanho suíno chinês tem ganhado força desde o 2° semestre de 2020, porém, novos desafios estão surgindo com a chegada do inverno, devido a maior risco de propagação do vírus, às mutações e ao surgimento de novas cepas, somado ao uso de vacinas ilegais e também do agravamento de outras doenças como a PRRS (Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos).

 Tais eventos têm resultado em um aumento da taxa de mortalidade de leitões e também do abate de suínos nos últimos meses. Estima-se que o rebanho suíno caiu cerca de 3% a 5% por mês de dezembro/2020 a fevereiro/2021.

No entanto, acreditamos que o rebanho atual ainda é de 10% a 15% maior do que há um ano, o que consideramos um retrocesso durante a tendência de recuperação do rebanho ao invés de um mero ponto de inflexão. O ponto positivo é que os altos níveis dos preços dos animais de reprodução sinalizam que os produtores estão confiantes nesse processo de recomposição.

O governo chinês reiterou sua política de apoio à produção local de suínos, enfatizando a importância da construção de sistemas de cria/genética. Como resultado, várias empresas líderes com capacidade de criação provavelmente receberão apoio político. Também esperamos que as importações de cria continuem em 2021, após a importação de mais de 20 mil animais de GGP (great-grandparent) em 2020.

Esperamos que a produção de carne suína chinesa cresça de 8% a 10% em 2021. Recentemente, ajustamos nossa estimativa para baixo (ante 12% previamente), devido aos entraves criados pela nova onda de surtos de PSA.

Acreditamos que a produção de suínos continuará crescendo, com o aumento do rebanho de porcas em relação ao ano anterior, apesar das perdas durante o inverno. As maiores incertezas estão relacionadas ao comportamento da PSA e ao ritmo de recuperação do rebanho suíno chinês, sem contar o comportamento da Covid-19, que ainda afeta a população chinesa.

 

Informação adicional sobre o último relatório da PSA referente ao período de 5 a 18 de Fevereiro/21 e publicado pela OIE, que é o órgão responsável por receber, processar e divulgar as notificações de novos casos no mundo todo

 

O analista ressalta que, os relatórios da OIE indicam que a PSA continua ativa e registrando novos casos na Ásia, Europa e África. Em comparação com os anos anteriores, segue a tendência de redução de novos casos, porém temos visto que a chegada do inverno nessas regiões acabou corroborando com o cenário de propagação do vírus e afetando diretamente o equilíbrio entre oferta e demanda global.

No último relatório da OIE, foram reportadas quase 170 mil perdas de animais contaminados, sendo 99% deles no continente asiático. Neste período, 1.250 novos casos foram notificados no mundo, sendo 684 na Ásia, 561 na Europa e 5 na África.

Com isso, o comércio global de suínos deve se manter volátil mesmo no curto prazo devido às possibilidades de novos choques tanto pelo lado da demanda como da oferta – com os desafios da China e outros países do sudeste asiático na recuperação do rebanho suíno, da Alemanha com relação a regionalização das áreas exportadoras, como também o câmbio e os preços recordes dos grãos para produção de ração, isso tudo em um cenário de pandemia global que afeta diretamente os serviços de food service, e que ainda não tem dado sinais de uma resolução próxima.

Como este novo cenário afeta a cadeia suinícola nacional, pensando em demanda e oferta de insumos, volume das exportações e variação do dólar?

Pelo lado da oferta, os principais desafios estão relacionados com os altos custos de produção da ração e dos animais de reposição. Isso porque os preços do milho e do farelo de soja têm registrado crescente valorização desde 2020, tendência que não foi acompanhada pelos preços do suíno vivo pagos ao produtor. Em Fevereiro/21, o preço da ração registrou alta de 112%, enquanto os preços do suíno vivo valorizaram 35%, resultando nas menores margens durante o período de pandemia.

 O cenário de isolamento social, do fechamento dos canais de food service e da redução do poder de compra do consumidor após o fim do auxílio emergencial tem pressionado ainda mais a demanda doméstica, e a criação de estoques em algumas regiões já está impactando a produção negativamente.

As exportações continuam sendo a melhor oportunidade para vendas, não só pelas recentes desvalorizações do Real frente ao dólar. Os novos surtos na China e a chegada do feriado do Ano Novo Lunar também corroboraram para elevar os volumes de carne exportada para o país asiático. Considerando os dois primeiros meses deste ano, houve um aumento de 5,7% nos embarques totais de carne suína, sendo que a China registrou elevação de 20% nas importações com relação ao mesmo período de 2020. Vale lembrar que no início do ano passado a China estava no pico da primeira onda do Covid-19.

Indicando bons volumes de exportação, os dados parciais de março têm trazido um fôlego a mais para o setor produtivo, que tem sido desafiado pela queda sazonal no consumo doméstico somado ao final do auxílio emergencial após 9 meses, em Janeiro/21. Pelo lado chinês, a 2ª onda da Covid-19 também tem impactado negativamente o consumo doméstico por conta das medidas de isolamento, mas também por conta da maior rigidez na fiscalização nos portos, que tem trazido lentidão logística para abastecer os centros consumidores.

As Américas do Sul e do Norte são as únicas regiões do mundo ainda sem incidência da PSA, cenário que tem se consolidado com a chegada da pandemia e com a redução da circulação de pessoas no mundo. Na nossa visão, este cenário deve se manter para este ano, e as principais oportunidades ainda se limitarão aos mercados da China (que representa 52% do total exportado este ano) e aos países do sudeste asiático que também estão sendo impactados pela PSA. Nosso vizinho, Chile, também registrou bons volumes de compra, com um aumento de 58% nos embarques com relação ao mesmo período de 2020, se tornando nosso 3° maior mercado.

 Também mantemos a visão de que a recuperação total não será possível antes e, mais provavelmente, só ocorrerá depois de 2023, conclui Wagner. 

 

Conhecendo o vírus da PSA

A PSA é uma doença altamente contagiosa, causada por um vírus composto por DNA fita dupla, pertencente à família Asfarviridae. A doença não acomete o homem, sendo exclusiva de suídeos domésticos e asselvajados (javalis e cruzamentos com suínos domésticos).

E para elucidar os aspectos epidemiológicos relacionados à característica do agente causador da PSA, a SuínoBrasil entrevistou a Epidemiologista, Professora da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP a Dra. Masaio Mizuno.

Em entrevista com a Chefe Geral da Embrapa Dra. Janice Zanella, a pesquisadora fez a seguinte ressalva sobre o vírus da PSA : “É um vírus muito difícil de trabalhar!” Em sua opinião quais são os principais entraves para decifrar/trabalhar o vírus e o  desenvolvimento da vacina?

O vírus não é totalmente conhecido principalmente no que diz respeito às proteínas estruturais (muitas delas, responsáveis em estimular resposta imune). Se um vírus não é bem conhecido, é praticamente impossível produzir vacinas eficazes. Um fator complicador é a existência de 2 genótipos distintos com comportamentos diferentes em alguns aspectos relativos às morbidade e mortalidade.

Ressalte-se que, quando o vírus for bem conhecido e se pretender produzir vacinas, estas deverão ser necessariamente vacinas atenuadas e não inativadas (mortas). Não se tem conhecimento sobre imunidade cruzada entre genótipos. Se comprovada parcial ou total ausência de imunidade cruzada, significa que animais recuperados de PSA causada por um genótipo poderão vir a ser infectados por outro genótipo, adoecerem com sinais mais graves ou não, mas com certeza irão eliminar o vírus de seu organismo e disseminar o vírus. Finalmente, comento que, caso venha a ser possível produzir vacinas, estas terão que ser necessariamente vacinas vivas atenuadas e não inativadas como se tem notícias do ocorrido ou estar ocorrendo na China.

Por quanto tempo o vírus pode permanecer infeccioso no ambiente e no animal?

 

O vírus é moderadamente frágil e não persiste no meio ambiente por muito tempo contido em secreções (saliva) e excreções (fezes e urina). Sobrevive, no máximo, por 24 horas no esterco e no chorume e o Genótipo II sobrevive por mais tempo, por exemplo, nas fezes por 4 dias a 37º C, na urina por 3 dias a 37º C e por 2-3 dias na secreção oral.

Convém mencionar a longa sobrevivência em produtos de origem suína crus ou industrializados como carne congelada, defumada, curada, maturada, salgada, seca, pele.

Com as notificações recentes, muitos questionamentos foram feitos sobre a limpeza e desinfecção das instalações com recorrência da PSA, a Dra. Masaio esclarece:

 

Existem desinfetantes no mercado capazes de eliminar traços do vírus nas instalações?

 

Segundo a Epidemiologista e a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), o vírus da PSA é sensível ao éter e clorofórmio; inativado pelo hidróxido de sódio a 8/1.000 em 30 minutos; hipocloritos (2,3% de cloro) em 30 minutos; formalina a 3/1.000 em 30 minutos; ortofenilfenol a 3% em 30 minutos e compostos iodados.

 

Como epidemiologista, a senhora acredita que seja possível estimar a recomposição do rebanho de suínos da China, tendo em vista as novas variantes, vacinas ilegais e pressão de outras doenças, particularmente a síndrome reprodutiva e respiratória suína (PRRS)?

Caso o sistema de criação de suínos permaneça inalterado, considero praticamente impossível porque reúnem todas as condições necessárias e suficientes para a persistência da PSA tais como:

  • Elevada quantidade de javalis e outros suídeos selvagens que são reservatórios de inúmeros agentes de doenças incluindo PSA, impossíveis de qualquer atuação humana seja por razões do habitat natural, seja em razões de proteção dos animais, tema mundialmente enfrentado pelo setor de produção industrial de animais.

 

  • Elevado números de granjas de criação informal que carecem de medidas de biosseguridade no que respeita à carente educação sanitária dos criadores; à alimentação que consiste principalmente de resíduos de alimentação humana; higiene pessoal dos colaboradores; sanitização (de instalações, objetos, veículos); notificação de ocorrência ao Serviço Veterinário Oficial (SVO) local; precário controle de pragas (roedores e moscas importantes vias de transmissão), comercialização de suínos na fase inicial da doença.

Certamente, a ocorrência de duas ou mais infecções ou doença intercorrentes principalmente em termos de saúde animal tem reflexos imediatos em razão dos prejuízos econômicos, porém mais importante é o potencial de disseminação das doenças no território chinês e países cincuncisos por se tratarem de doenças transfronteiriças, i.e, não respeitam fronteiras geográficas.

Como a PSA está ocorrendo na Europa e Ásia que são contíguos embora com diferentes níveis de incidências, os esforços para seu controle, uma vez que a erradicação se tornou impossível, o controle dependerá de um esforço conjunto respeitando as diversidades sociais, culturais, econômicas e perfil dos sistemas produtivo dos países, conclui a pesquisadora.

Fonte: Redação SuínoBrasil.




Entrevistas +

NOVIDADES DO SETOR

 
 










Ver outras revistas


 

Cadastro Newsletter Suino Brasil

Tenha acesso a boletins de nossos especialistas e a revista digital.



logo

GRUPO DE comunicação agrinews

Política de Privacidade
Política de Cookies