AUTOR(ES)

Especialista em suinocultura

César Augusto Pospissil Garbossa

Professor na área de Nutrição e Produção de Suínos da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo

Especialista em suinocultura

Leonardo da Silva Fonseca

Professor na área de Suinocultura, Bioclimatologia e Bem-Estar Animal da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri

As fêmeas suínas evoluíram significativamente em relação aos aspectos produtivos, principalmente nas últimas décadas, no que diz respeito ao tamanho da leitegada. Essa evolução foi possível devido à intensa seleção genética e às mudanças associadas ao manejo, às quais as matrizes foram submetidas. Particularmente, para se produzir um maior número de leitões, bem como leite em quantidade e qualidade, há o aumento da exigência nutricional. Portanto, a nutrição animal precisou acompanhar essa evolução, para garantir o desempenho produtivo através do aporte nutricional adequado.

As fêmeas suínas evoluíram significativamente em relação aos aspectos produtivos, principalmente nas últimas décadas, no que diz respeito ao tamanho da leitegada.

 

Dessa forma, vários pontos devem ser considerados nas dietas periparto (104 dias de gestação), no entanto, um desses pontos, que muitas vezes é pouco considerado, é o balanço eletrolítico (BE) da dieta. Sódio (Na), potássio (K) e cloro (Cl) são macro minerais com distribuição nos fluidos e tecidos moles do organismo, que agem em conjunto com íons de fosfato e bicarbonato atuando sobre:

  • controle homeostático orgânico,
  • manutenção da pressão osmótica,
  • equilíbrio acidobásico,
  • controle da passagem dos nutrientes
  • para as células e
  • metabolismo da água.

Ainda, vale ressaltar que a relação desses três elementos é mantida de forma equilibrada no sangue, sendo Na, K e Cl decisivos na regulação dos processos vitais. A relação entre esses minerais fundamenta-se na manutenção ideal entre cátions e ânions no plasma.

De uma forma geral, as rações dos suínos são formuladas a partir de matérias-primas de origem vegetal, as quais possuem um alto teor de potássio. No entanto, essas rações são pobres em sódio. Nesse sentido, com o objetivo de suplementar o sódio, há um desequilíbrio no fornecimento de Cl-, cujas necessidades são aproximadamente 20% inferiores às de Na+.

 

Assim sendo, para atender às exigências de Na+, é mais adequado utilizar bicarbonato de sódio e/ou formular as rações atendendo ao BE, o qual se relaciona com o equilíbrio iônico dos fluídos orgânicos, que regulam o balanço acidobásico, para manutenção da homeostase orgânica. O BE pode ser calculado a partir da equação BE = (Na+ + K+ + Ca++ + Mg++) – (Cl + H2PO4 + HPO4 + SO4) e é expresso em mEq/kg de ração.

Sabe-se que o BE pode influenciar o desempenho e a digestibilidade dos nutrientes em suínos nas fases de creche e crescimento/terminação, sendo associado ao melhor desempenho, bem como maior consumo de água pelos leitões. Somado a isso, o BE possui a capacidade de modular o pH da urina e das fezes, podendo resultar em decréscimo na emissão de amônia e, assim, minimizar o odor dos dejetos frescos dos suínos. De uma forma geral, acredita-se que o BE negativo causa a diminuição do consumo de ração, enquanto o BE positivo pode maximizar o desempenho dos animais.

De acordo com o NRC (2012), o BE ótimo para
suínos é de 250 mEq/kg, porém estas rações
normalmente não são corrigidas quanto ao
BE, tendo valores menores quando ocorre
redução da proteína bruta e suplementação
com aminoácidos industriais.

 

O ambiente em que os animais são mantidos também pode influenciar nos níveis de Na+, K+ e Cl- do plasma, sendo que a concentração de K+ e Na+ diminui à medida que a temperatura ambiental se eleva, no entanto, a concentração de Claumenta com o aumento da temperatura ambiente (Belay e Teeter, 1993).

Como mencionado anteriormente, a maximização do desempenho produtivo das fêmeas suínas é um grande desafio para os nutricionistas.

Uma das tecnologias disponíveis para garantir esse benefício é a manipulação do BE, haja vista alguns pesquisadores demonstrarem efeitos positivos da regulação do BE sobre a lactação e o desempenho reprodutivo em bovinos leiteiros.

As fêmeas suínas evoluíram significativamente em relação aos aspectos produtivos, principalmente nas últimas décadas, no que diz respeito ao tamanho da leitegada.

 

Em estudo recente, conduzido por Ao et al. (2020) avaliando os efeitos da alteração do BE (165 ou 300 mEq/kg) na dieta de fêmeas suínas em gestação, observou-se que fêmeas alimentadas com a dieta de gestação de 165 mEq/kg, apresentaram maiores número total de leitões nascidos, número total de leitões nascidos vivos e peso da leitegada ao nascimento, quando comparadas às fêmeas alimentadas com a dieta de gestação de 300 mEq/kg.

Porém, outros autores relataram que a variação do BE da dieta (-100, 0, 162 e 300 mEq/kg), do dia 90 da gestação ao parto, não afetou o número de leitões nascidos vivos, nem o peso da leitegada ao nascimento (Cheng et al., 2015).

As fêmeas suínas evoluíram significativamente em relação aos aspectos produtivos, principalmente nas últimas décadas, no que diz respeito ao tamanho da leitegada.De forma semelhante, estudos de outros pesquisadores, avaliando diferentes níveis do BE nas dietas pré-parto, não observaram efeitos sobre o número total de leitões nascidos vivos, nem sobre o peso da leitegada ao nascimento (Dove e Haydon, 1994; DeRouchey et al., 2003). No trabalho de DeRouchey et al. (2003), relatou-se que o número total de leitões nascidos vivos ou o peso da leitegada ao nascimento não são influenciados pelo BE (0, 100, 200, 350 e 500 mEq/kg) em dietas a partir do dia 109 da gestação.

 

No trabalho de Ao et al. (2020), o qual avaliou BE em dietas de gestação, verificou-se que as fêmeas que receberam a dieta com 165 mEq/kg desmamaram um maior número de leitões, bem como aumentaram o peso da leitegada ao desmame, em comparação com as fêmeas alimentadas com a dieta de 300 mEq/kg.

De forma semelhante, outros estudos (Tilley, 1997; Hines et al., 2000; DeRouchey et al., 2003) verificaram que a diminuição do BE da dieta de lactação aumentou a taxa de sobrevivência de leitões durante a lactação.

Esse fato foi associado pelos autores à menor exposição ao desafio bacteriano ao qual os leitões foram submetidos, devido à diminuição do pH urinário e das infecções do trato urinário das fêmeas alimentadas com dietas de baixo BE (Dee et al., 1994; Hines et al., 2000).

 

 

Esse fato foi comprovado por DeRouchey et al. (2003), que demonstraram que o pH do sangue e da urina, bem como as bactérias urinárias totais, diminuíram à medida que o BE foi reduzido de 500 para 0 mEq/kg em dietas de lactação.

 

No entanto, a pesquisa realizada por Cheng et al. (2015) não demonstrou quaisquer efeitos benéficos do BE (-100, 0, 162/198 e 300 mEq/kg) do dia 90 da gestação ao dia 21 da lactação, sobre o desempenho da leitegada e composição do colostro e leite.

Sabe-se que os ânions possuem efeito de modulação sobre as células imunológicas, capacidade de redução dos radicais livres, bem como podem melhorar a resposta imune e, consequentemente, maximizar a resistência às doenças.

As fêmeas suínas evoluíram significativamente em relação aos aspectos produtivos, principalmente nas últimas décadas, no que diz respeito ao tamanho da leitegada.Cheng et al. (2015) observaram aumento plasmático de IgG, IgA e IgM no dia 107 da gestação, IgG no dia do parto, bem como IgG e IgA no dia do desmame em fêmeas alimentadas com uma dieta de gestação com BE de -100 mEq/kg, em comparação com porcas recebendo dietas com BE de 162 mEq/kg.

 

No estudo de Ao et al. (2020) foi demonstrado que porcas consumindo dietas com BE de 165 mEq/kg apresentaram um menor nível de cortisol sérico no dia do parto e no dia do desmame, quando comparadas às porcas que receberam dietas com 300 mEq/kg, o que indicou que a dieta de gestação com menor BE pode, potencialmente, aliviar o estresse agudo em alguns momentos, como durante o parto e no desmame e, assim, melhorar a resposta imune.

 

Um ponto a ser ressaltado é que BE negativos podem resultar em diminuição do consumo voluntário de ração (Escobosa et al., 1984; Patience et al., 1987; DeRouchey et al., 2003; Cheng et al., 2015). Esse efeito está possivelmente associado à acidose metabólica causada pelo aumento do nível de Cl- plasmático, derivado da ingestão de CaCl2 (Yen et al., 1981), o que é corroborado por Oetzel (1993), em sua afirmação de que a adição de sais aniônicos pode reduzir a palatabilidade da dieta.

Os resultados de estudos com a alteração do BE da dieta durante a fase final da gestação são controversos. Nesse sentido, mais estudos devem ser realizados a fim de se estabelecer o BE ideal da dieta para a fase final de gestação, visando assegurar desempenho satisfatório da matriz e de sua respectiva leitegada.

 




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