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Especialista em suinocultura

Cândida Pollyanna Francisco Azevedo

Zootecnista - UFV MsC Zootecnia - UFV Doutoranda em Ciência Animal e Pastagens ESALQ/USP Redatora Grupo de Comunicação AgriNews

Em setembro de 2020 a China, maior consumidora de carne suína, estabeleceu uma meta de longo prazo para se tornar autossuficiente em 95% na produção de carne suína. E para atingir a meta, o país governado por Xi Jinping lidera uma campanha para aumentar a eficiência e a segurança do setor de alimentos, reduzir o desperdício e aumentar o peso do abastecimento doméstico.

A suinocultura chinesa está se reerguendo do surto de peste suína africana (PSA), que desde 2018, já reduziu a criação chinesa suína pela metade. Além da infecção ser fatal para os animais, grande parte dos 450 milhões de suínos do rebanho chinês que existiam no país precisaram ser sacrificados para evitar a disseminação da doença.

MAIOR COMPLEXO PRODUTIVO DO MUNDO 

E para atingir a meta de autossuficiência mediante as duras consequências da PSA, a suinocultura chinesa está investindo em complexos de produção de suínos no país e em outros continentes.

No território chinês, a grande produtora de suínos Muyuan Foods está tentando ampliar a produção de suínos em um único local – um investimento de risco elevado com a mortal PSA persistindo.

Se funcionar como planejado – e outros suinocultores seguirem o exemplo – o maior consumidor de carne suína do mundo poderia reduzir as compras do mercado global, afetando o comércio de carne em expansão que tem apoiado os agricultores em todo o mundo.

Diante desse investimento colossal fica o seguinte questionamento no ar:

E O CONTROLE SANITÁRIODO REBANHO?

Com milhões de pequenas unidades produtoras de suínos que criam menos de 500 animais por ano, a China agora estabeleceu outra meta, de que 70% de todas as propriedades sejam de grande escala até 2025, proporção que deve aumentar para 85% até 2030.

O objetivo dessa nova política é centralizar a produção de suínos, aumentando assim o controle sanitário do rebanho e mitigando a possibilidade de um novo surto dizimar o plantel do maior consumidor de carne suína do mundo.

Imagen: Muyuan Foods / Reuters

COMPLEXOS CHINESES NA ARGENTINA 

Além da construção desses enormes complexos, para atingir a autossuficiência, a China anunciou um investimento na Argentina.

O país vizinho receberá três complexos de suinocultura chineses que funcionarão em formato integrado para exportação. As unidades serão construídas na Província de Chaco.

 

A província de Chaco que está situada na região do Chaco argentino possui extensão territorial de 99.633 km² e população de 984.446 habitantes (censo de 1991), cuja capital é a cidade de Resistencia, foi escolhida para sediar o investimento de US$ 129 milhões.

Os estabelecimentos estarão localizados em áreas estratégicas do território provincial: um no nordeste, outro no centro e o terceiro no sudoeste.

O acordo bilateral foi assinado entre a Argentina e a empresa de capital sinoargentino Feng Tian Food (FTF). As estruturas irão atuar na província com os produtores locais como parceiros estratégicos.

DEMANDA DE INSUMOS

No que tange a demanda por insumos na alimentação, que corresponde a 70% dos custos de produção, cada complexo vai demandar:

32,3 mil toneladas (total 96,9 mil toneladas) de soja

87,4 mil toneladas (total 262,2 mil toneladas) de milho

por ano para alimentar os suínos, abastecidos pela produção local.

Vale ressaltar que, as variações dos preços externos estão encorajando a produção de milho mesmo em um ano em que o clima se tornou o principal adversário da safra.

O governador da Província de Chaco, Jorge Capitanich, informou que

“É um volume que pode ser
abastecido localmente sem
transtornos, já que a província
produz cerca de um milhão de
toneladas de milho por ano e 1,6
milhão de soja”

REFLEXOS SOBRE O MERCADO NACIONAL DE CARNE SUÍNA

A empresa Feng Tian Food já tem parcerias comerciais entre os dois países (China e Argentina) e passará imediatamente a desenvolver contatos diretos com investidores chineses.

Segundo autoridades locais o impacto econômico com a construção será gigantesco.

Diante da recomposição de rebanho acelerada do “furacão China” e a instalação de novos complexos no país vizinho, fica o questionamento:

Quais os reflexos desses acordos sobre o mercado nacional de carne suína?

E para responder a esse questionamento a SuínoBrasil consultou o Diretor de Mercados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Luís Rua. Segundo Rua:

“Em termos de exportações, e em de fato se concretizando estes projetos, são nações que devem ganhar no médio prazo algum espaço entre os fornecedores da China. Os impactos para o Brasil e os demais atuais fornecedores de carne suína para a China não devem ser, entretanto, expressivos. Isto, se considerarmos a dimensão da lacuna hoje em vigor no mercado chinês – com perdas superiores a 30% da produção de carne suína chinesa este ano, quando comparado ao ano de 2018, ou seja, pré-efeitos da PSA.

Ainda, a previsão de restabelecimento de 95% da produção chinesa até 2025 indica que haverá posteriormente um mercado de ao menos 2,5 a 3 milhões de toneladas (~5%) a ser abastecido via importações se, e quando, a China restabelecer efetivamente os níveis anteriores de produção. Soma-se a isto, o aumento da população chinesa e a inserção de grande contingente populacional no consumo de carne suína nos próximos anos, fruto do crescimento econômico chinês. Ou seja, entendemos que haverá espaço para vários fornecedores e ao Brasil cabe lutar para garantir um bom espaço neste mercado desde já, promovendo o seu produto e a sustentabilidade de sua produção.

Em termos de insumos, também não se acredita em forte elevação da demanda sobre o insumo brasileiro – já que a Argentina é autossuficiente na produção de grãos.”

Outro fator relevante desse acordo, a ser considerado, é o controle sanitário nas granjas em Chaco, bem como o controle das barreiras Brasil-Argentina. A Chefe Geral da Embrapa Suínos e Aves, Janice Zanella elucidou sobre o tema, afirmando que:

“Existem ações do MAPA fora e dentro da fronteira, além de ações gerais de granja e comércio”

E além disso, a pesquisadora ressalta que o trânsito de animais no país é proibido se a origem desses animais for de países com casos de PSA ou a peste suína clássica.

“O risco sempre existe e o Brasil tem implementado fortes ações de fiscalização em portos, aeroportos e fronteiras, a partir da atuação do VIGIAGRO (Vigilância Agropecuária Internacional), garantindo assim, o controle sanitário da pecuária nacional.”

Na visão do analista econômico de proteína animal da Rabobank, Wagner Yanaguizawa esses acordos a curto
prazo apresentam pouco risco à produção nacional de carne suína, uma vez que, tais acordos ainda estão sendo implementados, cujo prazo final para implementação é de quatro a cinco anos.

“A estimativa é para uma produção de 900 mil toneladas, valor considerável, mas a curto prazo o cenário ainda é limitado com esses volumes. A Argentina, com relação à produção de carne suína, no mercado internacional, é um player incipiente, com uma produção ainda pequena e conta com um mercado doméstico muito forte, com uma produção anual média de 600 mil toneladas e 95% desta produção é destinada ao mercado doméstico. Em 2019 a Argentina exportou aproximadamente 30 mil toneladas de carne suína. A título de comparação, apenas no ano de 2020 o Brasil exportou mais de 500 mil toneladas de carne suína para a China.”

Os volumes de demanda para a China ainda são muito grandes, antes da crise da PSA, metade do rebanho mundial estava na China.

“Olhando em termos de competitividade, Brasil x Argentina, a demanda mundial por carne suína ainda é elevada. Pensando em curto prazo, as movimentações são incipientes em competitividade” conclui Wagner.




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