03 maio 2021

Carne suína brasileira: exportações podem bater recorde em 2021



AUTOR(ES)

Especialista em suinocultura

Cândida Azevedo

Zootecnista, MsC Zootecnia, Doutoranda em Ciência Animal e Pastagens e Editora Grupo de Comunicação AgriNews

Mesmo com os esforços da China em tentar recompor os plantéis suínos parcialmente dizimados pela Peste Suína Africana (PSA) e estabelecer protocolos de controle de zoonoses, novos surtos da doença vêm surgindo no país e, novamente, redesenhando o mercado de proteína animal. De acordo com o diretor de mercado da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Luís Rua, a situação do gigante asiático deve seguir beneficiando as exportações da carne suína brasileira até, no mínimo, meados de 2022.

A situação do gigante asiático deve seguir beneficiando as exportações da carne suína brasileira até, no mínimo, meados de 2022

A situação do gigante asiático deve seguir beneficiando as exportações da carne suína brasileira.

 

“É possível que este ano o Brasil supere novamente o recorde de exportações, ultrapassando 1,021 milhão de toneladas embarcadas em 2020”, afirmou.

 

O analista da SAFRAS & Mercado, Allan Maia, concorda que as exportações brasileiras de carne suína devem ficar em volumes muito próximos ao resultado obtido no ano passado, ou até superá-lo.

De acordo com a agência internacional de notícias Reuters, até o final deste mês de abril já foram informados dez casos de PSA registrados na China desde o início de 2021. As estatísticas, no entanto, não são confirmadas pela OIE (Organização Mundial de Sanidade Animal). O último reporte oficial da Organização sobre a doença na China foi informado em 25 de janeiro, e outro em 17 de fevereiro em Hong Kong (território autônomo).  

Com os casos da doença sendo reportados pela imprensa, consultorias e autoridades locais chinesas, a estimativa é que haja um aumento pontual na produção de carne suína na China, mas que ainda deve ficar abaixo dos níveis pré-crise da PSA ocorrida em meados de 2018. 

Segundo Rua, antes da crise da PSA atingir a China em 2018, a produção de carne suína local era de cerca de 54 milhões de toneladas/ano. No início deste 2021, o USDA ( Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) sinalizava para uma produção chinesa de 43 milhões de toneladas, valor que já foi revisto para baixo, agora estimado em 40,5 milhões de toneladas, considerando os novos surtos da doença e suas consequências.

“Se a previsão de produção de carne suína na China é de 40,5 milhões de toneladas para este ano, eles terão de importar de algum lugar o restante para chegar às 43 milhões de toneladas projetadas anteriormente . O Brasil está muito bem posicionado para isso, e já saiu do 6º para o 4º na lista dos países dos quais a China mais importa”, explicou. 

Mesmo sem a confirmação oficial dos surtos de PSA na China por parte da OIE, a divulgação da informação por outros canais já mexe com o mercado da suinocultura chinesa. Informações da Reuters dão conta de que os preços dos suínos na China caíram 40% no primeiro trimestre de 2021, à medida que os produtores correram para liquidar os rebanhos em meio a uma onda de disseminação da doença.

“Entre os suínos abatidos no primeiro trimestre, houve uma grande parcela de porcas com baixo desempenho que foram eliminadas antecipadamente  e também os animais de engorda abatidos precocemente para evitar perdas pela doença”, disse o Tech-bank Food Co Ltd em nota enviada à agência de notícias.

Outro fator que demonstra a movimentação em torno dos casos de PSA na China foi verificado na alta dos preços dos leitões no país, conforme dados do jornal Financial Times. Desde que as preocupações com as cepas do vírus que causa a PSA começaram a aumentar, os preços na segunda quinzena de março subiram mais de 15%. 

“Em uma situação dessas, os chineses ofertam mais animais para abate, baixando o preço da carne. Em contrapartida, o preço do leitão está alto e se mantém estável, sinalizando que a China não terá volumes de animais prontos para retomar o patamar de produção pré-PSA ainda este ano. Arrisco dizer que isso deve seguir até meados de 2022″, disse Rua.

Importações chinesas

Segundo informações da Bloomberg, em março as importações de carne suína feitas pela China aumentaram 16% em relação ao ano anterior para 460.000 toneladas, conforme reporte da alfândega local. O número é apontado como recorde histórico, dadas as preocupações com a oferta da proteína devido ao retorno de surtos de PSA no país.

Dados da plataforma ComexVis, do Ministério da Economia, Indústria, Comércio Exterior e Serviços do Brasil, apontam que de janeiro a março de 2021 a China ampliou as compras da carne suína brasileira em pouco mais de 30%, e hoje é responsável pela aquisição de 59% da proteína suinícola exportada pelo Brasil. 

Rua explica que mesmo com a intenção da China em se tornar 95% autossuficiente na produção de carne suína e uma eventual recuperação dos plantéis, o que deve demorar mais a ocorrer devido aos entraves sanitários, o gigante asiático deve seguir importando a proteína.

“A China vai crescer em população e em economia, incluindo mais pessoas na faixa de consumo de proteínas animais”, apontou.  

A expectativa do diretor de mercado da ABPA é que neste ano o Brasil siga exportando todo mês, de forma geral, uma média de 100 mil toneladas de carne suína, com ritmo puxado pela China.

Somente no mês de abril, por exemplo, nos 15 dias úteis  já ultrapassaram em mais de 20% tanto em receita quanto em volume embarcado o resultado obtido em todo o mês de abril de 2020. 

De acordo com o analista da SAFRAS & Mercado, Allan Maia, empresas privadas da China falam em perdas de cerca de 20% nos rebanhos devido aos últimos casos de PSA, principalmente no nordeste do país.

“Se a PSA estiver mesmo voltando com essa força, provocando perdas nestes níveis, é bem provável que em 2021 o Brasil siga exportando bastante carne suína, e que esse ritmo se mantenha em 2022”, disse.

Entretanto, segundo Maia, ainda existem alguns entraves para que o Brasil aumente de maneira expressiva os embarques de carne suína para o país asiático. Um deles é o número de frigoríficos habilitados, cerca de 10, e o outro são regiões produtoras do país que utilizam a ractopamina para melhorar a relação carne/gordura nos animais. O aditivo é proibido na China.

 

Novas cepas da PSA 

Além do já conhecido vírus da PSA atrapalhando o trabalho de recomposição dos plantéis chineses, o surgimento de novas cepas da doença foi detectado no início do ano, dificultando ainda mais o processo.

As novas variantes da PSA  foram identificadas em janeiro na quarta maior companhia produtora de suínos na China, a New Hope Liuh, atingindo cerca de mil animais. Entretanto, segundo o diretor científico da empresa, as novas cepas não são tão mortais quanto o vírus já conhecido, mas afeta os níveis de produtividade das matrizes.

Estes novos tipos de cepas de PSA são atribuídas, segundo cientistas chineses, ao uso de vacinas ilegais para a doença, que não tem cura e nem uma imunização preventiva oficialmente testada e eficaz.  

O Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China emitiu pelo menos três alertas contra o uso de vacinas não autorizadas contra a PSA, afirmando que elas podem ter efeitos colaterais graves e que produtores e usuários poderiam ser acusados criminalmente.

Devido às mudanças no panorama das zoonoses e do mercado da suinocultura chinesa, as projeções sobre o setor para o ano de 2021 vão sendo revisadas ou analisadas conforme o andamento dos meses.

O banco holandês Rabobank projeta que a produção de carne suína na China deva aumentar entre 8% a 10% em 2021, no comparativo com o ano passado. O crescimento deve flutuar ao longo do ano, com um primeiro trimestre de altas rápidas, devido aos abates por medo da PSA, e diminuição de ritmo no segundo trimestre.

O número de suínos do plantel chinês e a perspectiva para 2021, especialmente para as matrizes, ainda são incertos. Consequentemente, a produção de carne suína e os preços da proteína também são duvidosos.

Medidas para controlar a propagação da PSA 

O Ministério da Agricultura da China divulgou neste mês um plano para dividir o país em cinco regiões que terão maior responsabilidade na prevenção e controle da peste suína africana, bem como outras doenças animais. Segundo a Reuters, as regiões terão a tarefa de garantir a notificação oportuna de surtos de doenças, avaliar os riscos e propor políticas de controle.

Serão criadas zonas livres de doenças dentro de cada região e, além disso em princípio, nenhum suíno além de reprodutores e leitões poderão entrar ou sair de suas regiões, informou o ministério.

Informações da Bloomberg dão conta de que a medida, que passa a valer neste mês de maio, vai derrubar os preços da carne suína nas principais áreas produtoras do norte e aumentar o custo da proteína popular nos centros de demanda do sul. Se os controles permanecerem em vigor a longo prazo, as empresas serão forçadas a abrir mais granjas de suínos mais perto de onde seus clientes estão.

Rações e custo de produção 

Outro fator que dificulta a avaliação de como será o andamento da suinocultura chinesa em 2021 é o alto custo dos insumos para alimentação dos animais, que deve fazer os custos de produção subirem de acordo com o Rabobank. Na questão de rações para suínos, o aumento previsto para este ano é de 11%  em comparação a 2020, apontou o banco em relatório.

Desde o surto de PSA, o país asiático precisou fazer robustos investimentos na reconstrução do seu rebanho, o que levou a uma dinâmica de compra mais agressiva nos mercados de soja e de milho.

O interesse chinês pela importação do cereal, no entanto, é um fator inédito. Até então, o país não possuía um histórico de compras de milho em grandes volumes – somente neste ano, foram negociadas quase 30 milhões de toneladas, sendo a maior parte proveniente dos Estados Unidos.

Apesar do forte início da reconstituição do rebanho chinês em 2020, a preocupação com uma segunda onda de PSA causa incertezas no mercado. “O cenário de uma demanda forte tem contribuído para a sustentação dos preços altos, mas o papel da China é muito grande e a gente tem que acompanhar essa questão da doença. Qualquer alteração na China pode causar um impacto global”, alertou Ana Luiza Lodi, da StoneX.

Diante dos altos custos de produção para a proteína, causados por um cenário global de oferta mais enxuta e demanda aquecida, o Ministério de Agricultura da China lançou uma campanha para reduzir o volume de milho e farelo de soja contidos na ração para animais. 
Em reportagem da agência Reuters, um documento do Ministério chinês aponta que o país deseja alcançar um equilíbrio entre oferta e demanda de grãos para ração e promover maior uso de arroz, trigo e outros insumos, além de outras farinhas para substituir o milho e o farelo de soja na ração dos animais.
Fonte: Notícias Agrícolas.

 




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